Queria dormir para sempre. Não morrer, que a vida lhe era demasiado preciosa. Não, morrer não, só adormecer e existir na paralela dimensão do sonho, onde a piedosa realidade nos abriga do perigo. Nessa noite adormeceu, desejando que fosse para sempre, mas rapidamente foi cercada por fantasmas que já lhe eram familiares.
Voltara à escola. Pessoas desconhecidas perdiam-se pelos corredores e campainhas tocavam, assinalando os momentos em que indubitavelmente se devia entrar e sair da vida. Ele esperava, algures, lá fora, tal como ela o esperava na realidade, o outro sonho. Estava atrasada e sabia que, perdido aquele infinitésimo de presente em que seria possível precipitarem-se sobre a perpétua intriga do amor, não mais se abriria o tempo. Correu pelo estrado feito em escadas, criando um vórtice em seu redor, batendo sofregamente os saltos altos que diluíam as vozes dos desconhecidos e das campainhas, sabendo que qualquer queda significaria a irremediável perda. Mas caiu, não no sonho, mas do sonho, pois rápido se encontrou na penumbra do quarto, reconhecida no calor asfixiante dos lençóis desalinhados. Olhou para as horas. Era 1.42h. Já não era possível voltar e desvendar as fendas do tempo; era agora mais urgente que nunca adormecer, adormecer para sempre. Mas à 1.43h a porta abri-se e ele entrou, sobressaltado, procurando o jardim em que, ainda há segundos, a esperava.
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